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Pessoas: um patrimônio pelo qual vale a pena lutar

Published at: 12/05/2021

Artigo publicado no jornal Valor Econômico em 10 de maio de 2021. Veja aqui

 

 

Wilson Risolia

Secretario Geral da Fundação Roberto Marinho

 

Durante minha vida profissional, aprendi que as pessoas são o maior patrimônio de uma empresa. Imaginava que isso pudesse ser verdade, mas só fui entender, concretamente, quando assumi funções de liderança.

 

São as pessoas que pensam, que planejam, implementam e controlam. Sendo isso uma verdade absoluta, não se pode imaginar qualquer atividade produtiva sem pessoas bem preparadas.

 

Imaginemos, apenas por alguns minutos, que um país funcione como uma grande Organização Empresarial. As atividades dessa Organização são bastante complexas, pois respondem pelo pensamento, planejamento, implementação e controle de políticas públicas. Para aumentar a complexidade, adicionamos uma dose de restrição orçamentária (comum a toda e qualquer Organização), pois o grande desafio será sempre “fazer mais com menos”; é assim que entregamos valor aos acionistas. Nesta Organização chamada Nação, os acionistas somos todos nós.

 

A complexidade não para por aí. Assim como acontece com as empresas, precisamos contemplar em nossos pensamentos e ações a dinâmica da sociedade, a dinâmica do mundo. Apenas para (re)lembrar, o século XXI também é marcado pelo globalismo. O que acontece com os seus pares certamente respingará em você.

 

Imaginemos, agora, uma empresa que não se preocupou em formar seu maior patrimônio (as pessoas) para enfrentar os desafios do mercado. Não se preocupou em formar lideranças, não se preocupou em formar bons técnicos e profissionais capazes de fazerem a leitura precisa de cenários e situar os negócios da empresa ao longo do tempo. Certamente esta organização padecerá, sucumbirá… Será uma questão de – pouco – tempo até que pague o preço pela inépcia, pelo desleixo, pela ausência absoluta de visão estratégica. Conjunturas adversas pegariam essa empresa de surpresa e o resultado nós já sabemos. Se, ao analisar o “track record” dessa empresa ficar evidente a falta de gestão e visão, os “investidores e acionistas” simplesmente darão as costas e vão deixar a empresa fechar as portas.

 

Fazendo um paralelo com a Organização chamada Nação, o que estamos vendo nos últimos anos? Uma Organização que despreza estatísticas, diagnósticos, que não sabe interpretar cenários, não consegue antecipar o futuro; por mais claro que ele seja.

 

Essa Organização está se deteriorando na frente dos seus acionistas (sociedade) sem que isso tenha consequências práticas. Essa Organização vê seu maior patrimônio (as pessoas) sendo esquecido. Acreditem, por incrível que possa parecer, os mais jovens – que representam o potencial, o futuro dessa Organização – são os mais desprezados.

 

Desconhecemos, por parte dos responsáveis pela administração da Nação, ações que possam preparar essas juventudes para o futuro, desconhecemos ações que estabeleçam as juventudes como uma prioridade e condição necessária para o desenvolvimento do país.

 

A recusa sistemática ao conhecimento e a negação daquilo que realmente importa e funciona trazem uma visão equivocada de mundo e, quase sempre, nos apresentam uma “contra-agenda”. Negar o óbvio traz consequências graves para empresas e, por conseguinte, para a Nação. Em muitos casos, entraremos em um caminho sem volta… um caminho falimentar.

 

Faz algum tempo que tenho defendido que a agenda educacional seja construída em comunhão com a agenda econômica. Reformas administrativas, previdenciárias, tributárias são importantes, mas, se não tivermos quem entregue nosso projeto de Nação, sucumbiremos. Não é por acaso que vivemos um vácuo de lideranças e um gargalo de trabalhadores cidadãos, preparados para a vida no século XXI.

 

Conectar educação e economia significa pensar nas juventudes. Significa lançar um olhar estratégico para esse patrimônio de extrema força; afinal, essas juventudes possuem habilidades e competências muito caras ao mundo corporativo atual, tais como: (i) superação (ii) enfrentamento do desconhecido (iii) aceitação da diversidade e (iv) capacidade de inovar.

 

Pensar nas juventudes como mola propulsora de desenvolvimento seria focar no ensino médio orientado ao mundo do trabalho. Isso não é favor, e sim visão estratégica de país.

 

Não estaríamos inventando nada de novo, apenas fazendo o que já é feito por países que pensam o futuro com responsabilidade. O modelo de “dual track” europeu é um caminho a ser seguido. Nele, incorporam-se as empresas às escolas. Não existe a mínima possibilidade de pensarmos a escola do futuro (que já chegou faz algum tempo) sem essa conexão.

 

Não podemos admitir que nosso país tenha um ônus fiscal de R$ 220 bilhões/ano com a evasão escolar de jovens de 15 a 17 anos. Não podemos admitir que 525 mil jovens, entre 15/16 anos de idade, cheguem à fase adulta sem concluírem a educação básica. Que futuro pode ter essa Organização chamada Nação?

 

Números recentes indicam que apenas 8% das matrículas do ensino médio são de ensino técnico-profissional; equivalente a 1,868 milhões de matrículas. Este número é um pouco menor que o número de 2014, ou seja, 1,886 milhões. A meta do Brasil, para 2024, é de 5,2 milhões de matrículas. Alguma esperança que a meta seja cumprida?

 

Na Europa, esse percentual alcança, em média, cerca de 40%. Alguns países declaram que 80% dos jovens saídos do ensino fundamental farão a opção pela formação técnica-profissional. Na Alemanha, 41% da população têm diploma de educação técnica-profissional.

 

E o que estamos fazendo por aqui? Discutindo “homeschooling”, ou outros temas secundários. Como acontece nas empresas, negar o óbvio tem um preço. Cometer equívocos na identificação das prioridades tem altíssimo ônus que pode comprometer o futuro da Nação. É exatamente o que estamos vivendo nos dias de hoje.

 

Desprezar as juventudes é desprezar o futuro do país. Desprezar a formação e o desenvolvimento das pessoas é negar a necessidade urgente de enfrentar e resolver as desigualdades que assolam nosso país.

 

Não podemos aceitar que criem expressões como “invisíveis” para justificar – com surpresa – o injustificável. Afinal, era segredo para alguém, minimamente inteligente e bem-intencionado, que de invisíveis nossas juventudes não têm absolutamente nada, pelo contrário, estão gritando por oportunidades faz tempo? Portanto, não podemos aceitar, inertes, que não se faça nada em prol de uma sociedade mais justa e igualitária… E essa sociedade passa, necessariamente, pela formação e desenvolvimento das nossas juventudes. Alguém duvida?